quinta-feira, 18 de outubro de 2007

Semiótica

Primeiras semioses...

9 comentários:

Silvana Isabel disse...

Uma das coisas que mais me chamou a atenção na última aula foram alguns alertas dados pelo Prof. Pedro: "O sujeito sempre vai responder conforme ele entendeu da pergunta" e "cuidado para não confundir a coisa humana com a sua manifestação". Esses alertas me lembraram o episódio do escritor Mário Prata que, uma vez, tentou responder perguntas relativas a um texto de sua própria autoria numa prova de vestibular e não acertou nenhuma das respostas.
Uma vez que a hermenêutica e a análise de discurso buscam a intencionalidade do autor numa obra e a semiótica busca o sentido da obra em si, pergunto: há como trabalhar, numa mesma pesquisa, esses distintos caminhos juntos numa tentativa de complementaridade ou seria uma espécie de "choque frontal"?

amaro disse...

Caso eu esteja errado ou superficial, por favor, mestre...comente:
Concordo com a Silvana sobre os alertas. Para mim, a mensagem que me pareceu mais importante foi a de que para a semiótica não interessa a intenção (análise do discurso), mas a produção dos sentidos (semiose).
Também gostaria de criar um exemplo: se um indivíduo do sexo masculino tivesse procurando um banheiro público em um país de língua hispânica e encontrasse duas portas: uma com a letra "M" e a outra com "H". Em qual entraria? Afinal, poderia ser Hembras e Machos. Interessante essa abordagem de signos (significado e significante) - língua e fala.

Claudio disse...

Como o Juliano, eu também (ainda) tenho muito preconceito contra a Semiótica, sempre me pareceu muito mais uma discussão de "sexo dos anjos" do que algo mais objetivo. Agora, lendo os primeiros textos do módulo, me deparei com preocupações mais concretas da Semiótica. Gostei muito do Saussure, que tinha lido na graduação, há mais de 20 anos. Me chamou atenção a discussão sobre a aleatoriedade das palavras - onomatopéias à parte e, a partir disso, fiz uma reflexão sobre o aspecto cultural da formação linguística. Já li, há muito tempo, por exemplo, que em algumas línguas faladas pelos esquimós, há mais de 20 palavras para falar "neve", o que mostra a importância que a neve tem naquele ambiente e como eles sabem reconhecer especificidades onde a gente só vê o geral. Lendo hoje os textos para a próxima aula, a coisa já complicou. Santaella mais clara, os textos em espanhol mais abstratos (não por causa da língua). Conclusão: ainda preciso me dedicar um pouco mais à Semiótica para tornar-me íntimo dela.

Katrine disse...

Eis que agora tenho noção do tamanho da minha ignorância de pensar que semiótica não me ajudaria em minha pesquisa. Tsc tsc... Tive péssimas e raríssimas aulas sobre semiótica na graduação e meu esforço de entendê-la sozinha não foi menos infrutífero. Agora, pela primeira vez, estou começando a entender!

O que complica é que agora todas as minhas semioses estão ficando mais complexas e trabalhosas! :)

Até amanhã!

juliano disse...

Acho que essa primeira aula do módulo ajudou a percebermos como foi construída a semiótica. Pela primeira vez, acho que compreendi como foi o processo de Saussure e as dificuldades que os autores russos enfrentaram. Um ponto que me chamou a atenção foi a crítica aos pesquisadores que usam a semiótica para descobrir o culpado pela notícia. Penso que essa busca do culpado levou a um uso inadequado da semiótica enquanto ferramenta política na universidade. Como disse o Pedro, não interessa o culpado, e sim o sentido da notícia. Temos a tendência de verificar o sentido político dos textos, antes mesmo de interpretá-los. Pelo nome do autor ou pelo nome do veículo, já tomamos como certo uma espécie de pré-sentido – o sentido que queremos dar para chegar à explicação que gostaríamos de ver realizada politicamente. Acredito que separar as coisas (o sentido político do sentido real da mensagem) é um grande desafio.

amaro disse...

Na última aula falamos muito na figura do Herói. Pergunta: nas histórias em que aparece a figura do anti-herói, a sintaxe e a semântica discurssiva devem ser observadas da mesma forma? Ou seja, com a localização do personagem no tempo e no espaço: atualização, temporalização e espacialização. Afinal, tanto na TV quanto nos quadrinhos há ou sempre houve anti-heróis a nos confundir entre ser mocinho ou bandido, Bom-Bom ou Mau-Mau...

Letícia disse...

Ainda na questão: FICÇÃO X REALIDADE. Deixei nossa aula de hoje, 31/10, tentando fechar o círculo sobre o problema do tempo, o tempo real. Pode parecer bem resolvido, mas acho que não é tão simples. O que é o tempo real? O agora? O momento? Só o que estamos vivendo agora? Um minuto atrás já é passado. Já não seria mais o tempo real? A despeito de todo o esforço de produção da televisão: gravar, gravar, gravar, produzir, armazenar imagens. Ficção, segundo o Pedro, ela é um veículo de natureza direta. A televisão consegue mostrar "ao vivo", "em direto"os acontecimentos, eventos da vida. A televisão no Brasil, principalmente o nosso telejornalismo, eleva o uso do direto aos casos excepcionais, quando quer fazer "espetáculo", dar show de cobertura, priorizar o tema. No dia a dia, a tv prefere o material gravado. Corre-se menos risco de errar "ao vivo". Cumpre-se com eficiência os compromissos com os anunciantes, patrocinadores do nosso modelo de tevê. O direto fica relegado aos momentos de exibição do que já está gravado com antecedência. Ao mesmo tempo, o telejornalismo "fala" no presente. Os verbos, os fatos estão no presente, na eterna busca de manter o fato atual. Enunciadores reais anunciam os fatos do dia a dia dos homens sempre no presente. O tempo da ficção, segundo o Pedro é pensado e passado. Se a tevê e o telejornalismo insistem em falar no presente é porque conhecem a força do tempo presente como gerador de realidade? Se as imagens televisivas, telejornalísticas beiram à ficção, à dramaturgia, ao dramático, estaria na questão do tempo o ingrediente de realidade? Pedro, existe uma definição, um conceito para tempo real?

Verônica Dantas disse...

Conforme alguns colegas comentaram, a Semiótica como ferramenta de pesquisa torna-se bastante interessante pra muitos casos. O fato de analisarmos o que está lá, não as intenções do enunciador, tornou-se clara para mim, pois a leitura que fazemos de uma capa de jornal pode se diferir muito daquilo que foi pensado originariamente pelos emissores. Parece óbvio, mas quando analisamos um texto com a ferramenta da Semiótica diversas questões aparecem, como mostrou Pedro com os exemplos das capas de jornal.Nesse sentido, os repertórios pelos quais um determinado texto vai ser lido ganham outra dimensão.
Outra observação sobre a aula de 24/10 diz respeito aos múltiplos usos das figuras de linguagem, pois, pelo menos para mim, até então as tomava apenas no seu lugar dentro do texto, de forma bem limitada. As idéias de sintagma, sistema, e as estruturas em Greimas, também foram aclareadas para mim, que conhecia mais as relações desenvolvidas por Saussure.
Verônica

cynthia rosa disse...

Eu, como o Cláudio, havia estudado Saussure ainda na graduação há mais de vinte anos e naquele tempo, como não poderia deixar de ser, tive uma compreensão bastante diferenciada do que pudemos tratar até aqui acerca de semiologia e de semiótica. Sinto-me diante de uma contradição: ou a semiótica é mesmo muito valiosa para entendermos o sentido do que sentimos, pensamos, dizemos, ou ela é não tem valor algum, posto que trata o discurso num patamar aparentemente sobrehumano e, portanto, aonde não nos interessa ir, já que somos meros mortais. Dia desses, na missa, relembrei-me de nossas discussões: a certa altura, na leitura do salmo, o salmista fazia referência à ira do Senhor. A Bíblia, bem o sabemos, é cheia de passagens que remetem a tal manifestação divina, a Ira. Curiosamente, no entanto, a Ira é uma dentre os sete pecados capitais que devemos evitar, nós, os pobres humanos. Então, lembrei-me da idéia de significação das coisas, sob o enfoque semiótico. Ok, não vamos discutir se Deus é culpado ou não por sermos, por vezes, irados, não vamos discutir a intenção oculta desse autor na escritura revelada de suas idéias. Mas parece-me que, apoiados nos processos metodológico de análise do texto, podemos perceber que as palavras têm um poder impregnante, tenha ou não má intenção o autor. Relendo um texto, dia desses, de um manual de técnicas jornalísticas, ao tratar de como aplicar títulos a uma matéria, recomendava-se evitar o uso de títulos no futuro do pretérito, hábito que hoje prolifera nos jornais. O que mudou? Seria apenas um modismo de fala que a escrita culta do jornalismo assimilou? Ou seria a manifestação de uma distorção nas práticas jornalísticas, em que a presunção de um fato e sua conseqüente divulgação é o que resta ao pobre trabalhador jornalista, obrigado ao jugo do mercado de trabalho e sobrevivendo, a duras penas, de seu velho auto-retrato de defensor da manifestação da verdade na sociedade? Enfim, não dá para pensar em termos de culpa, de intenção, mas dá para pensar que, conhecendo a semiótica – ciência para mim muito difícil –, é possível relembrar o peso da palavra, o impacto que ela efetivamente gera sobre as pessoas. Jornalista que desconhece isto pode até não ser mal intencionado, mas, parece, também não está bem preparado para a lida com o principal instrumento de seu ofício.